E a dança continua?!

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É NOITE DE LUA CHEIA NA PRAIA. Dois jovens dançam envolta de uma fogueira apagada, solitários a dois, concentrados, viciados no seu ritual. Eles se detêm por um instante e fingem espontaneidade, sorriem e dizem serem amigos, mas se olham desconfiados, tentam adivinhar os próximos passos para se ajustar melhor ao ritmo da dança. São desconhecidos íntimos, sócios de uma paixão oculta e reprimida. Ramirez sonha acordado com Miranda, que, por sua vez, sabe que o Ramirez a ama e ela não corresponde. Essa certeza não o desanima, pelo contrário, o estimula e continua insistindo. Pretende reverter o processo e espera algum sinal positivo da sua dama, que por enquanto não chega e talvez jamais chegará. Ainda assim, Ramirez espera. Não são amigos de verdade, nem amantes, nem namorados. O que são então?

Talvez a palavra seja “cúmplices”, vítimas e reféns da uma armadilha inconsciente. Ramirez encontrou a mulher “ideal” etérea e escorregadia, diferente das mulheres reais com as quais se pode falar sinceramente, abraçar e às vezes, beijar. A Miranda, é ideal, perfeita e suas virtudes aumentam com o tempo e a distância. Ela não o ama, nem desiste dele, o tem à sua disposição, em última instância, é um homem que a idolatra e espera e isso, obviamente, mitiga sua solidão.

É difícil acreditar que um amor verdadeiro possa florescer nessas bases. A Miranda, de alguma forma é cruel por seduzir a quem não ama e Ramirez masoquista, por insistir e esperar um amor que a Miranda não pode, ou não quer lhe proporcionar.

Tempos se passaram, a dança durou demais, está na hora de rever sua coreografia. Ramirez precisa conhecer um detalhe sutil, porém importante: as mulheres não respeitam nem admiram os homens que as considerem como a única opção. Não tem graça ser amada por ser única, a mulher quer ser escolhida por ser a melhor entre todas. Só as crianças, nos seus primeiros anos, dependem inteiramente do amor de uma mulher; a maioria dos adultos, não morre de carência, sofre o que necessário, mas acaba elaborando a perda. Ramón precisa romper o círculo vicioso. Não é interessante para a Miranda se unir a um homem imaturo e carente, talvez ela mesma também o seja e por isso precisa ser escolhida por um homem decidido e forte. Não se trata de fingir interesse por outras mulheres, precisa se interessar de verdade.

Reconheço que o sofrimento do Ramirez é intenso, porém superável, mesmo na pior das hipóteses – a Miranda não ceder – vai sobreviver à sua ausência. A pergunta que se impõe é por que o Ramirez, que já amou outras mulheres sem problema, desta vez ficou preso. Não sabemos. No entanto é provável que as dificuldades que a Miranda impôs ao namoro tenham lhe dado a oportunidade de elaborar e talvez superar outras perdas do passado. Seu entusiasmo por dançar com ela na praia poderia ser indício de que já tenha “dançado” no passado. Se não foi a sua primeira experiência, deve se esforçar para que seja a última.

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~ por Don em sábado, 5 abril, 2008.

Uma resposta to “E a dança continua?!”

  1. Nunca m’apaixonei.. tive duas pseudo-paixões.. mixurucas…

    A verdade é que gostamos de desafios.. e Ramirez encontrou um enorme desafio com Miranda.. Já ela, não encontrou nenhum desafio nele.

    ‘As mulheres não respeitam nem admiram os homens que as considerem como a única opção. Não tem graça ser amada por ser única, a mulher quer ser escolhida por ser a melhor entre todas.’

    falou tudo, parabéns!

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